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Após 22 meses, o país volta a criar empregos

por Notícias às 09:40 de 17/03/2017 em Mercado de Cartões

Fonte: CORREIO BRAZILIENSE/BRASÍLIA | ECONOMIA

O Brasil voltou a criar empregos: 35,6 mil vagas com carteira assinada foram abertas em fevereiro — algo que não ocorria havia 22 meses.

Boas notícias no emprego e em aeroportos

O Brasil voltou a criar empregos: 35,6 mil vagas com carteira assinada foram abertas em fevereiro — algo que não ocorria havia 22 meses. Enquanto isso, no leilão de venda de quatro terminais aeroportuários, o governo lucrou mais do que o esperado.

Ministério do Trabalho registra a abertura de 35,6 mil vagas com carteira assinada em fevereiro. Saldo positivo entre demissões e contratações não ocorria desde março de 2015. Analistas, contudo, dizem que é preciso avaliar os dados com cautela

Após 22 meses, o país volta a criar empregos

O presidente Michel Temer convocou a imprensa, ontem, para anunciar a criação de 35.612 vagas com carteira assinada em fevereiro, de acordo com os dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), do Ministério do Trabalho. Temer comemorou a notícia positiva, após 22 meses de fechamento de vagas — desde março de 2015, quando foram abertos 19.282 postos. “Claro que temos ainda muitos milhões de brasileiros que querem emprego. Mas é preciso começar. E o começo é por esta notícia”, disse.

O chefe do Executivo, que tem feito esforço para expor uma agenda positiva em seu governo, aproveitou a levantamento para sinalizar que, segundo ele, é crescente a confiança dos agentes de mercado. "A economia brasileira volta a crescer e os sinais desse fato são cada dia mais claros”, pontuou. Para o ministro do Trabalho, Ronaldo Nogueira, o Caged “mostra que as medidas adotadas pelo governo nos últimos sete meses recolocaram o país nos trilhos, fazendo com que a crise fique cada vez mais distante”.

Os dados não apenas são animadores, como também indicam uma incipiente reação dos investimentos, na avaliação do coordenador-geral de Estatísticas do Trabalho do Ministério do Trabalho, Mário Magalhães, Ele ressaltou a geração de postos na indústria mecânica e na metalúrgica, subsetores da indústria da transformação, que registrou em fevereiro saldo de admissões superior ao de demissões em 3,9 mil postos. “Isso denota investimentos, compra de capital fixo”, destacou Magalhães.

O setor que mais abriu vagas, porém, foi o de serviços, com saldo de 50,1 mil contratações. A agropecuária admitiu 6,2 mil trabalhadores e a administração pública, 8,3 mil. Já o comércio fechou 21,2 mil postos e a construção civil dispensou 12,9 mil pessoas.

Reserva

Para muitos analistas, o Brasil ainda não tem motivos para comemorar, já que, nos últimos 12 meses, foram fechados 1,28 milhão de empregos formais. O saldo positivo de fevereiro foi resultado de 1.250.831 contratações e de 1.215.219 demissões, o que levou o país a registrar 38.315.069 pessoas empregadas. A Região Sul teve o maior crescimento (35.422 vagas). O Sudeste abriu 24.188 vagas e o Centro-Oeste, 15.740. No Norte (-2.730 vagas) e Nordeste (-37.008), as dispensas superaram as contratações.

O economista Geraldo Biasoto Júnior, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), disse que a pequena melhora já era esperada. “E de praxe que fevereiro seja melhor que janeiro, quando ocorrem as dispensas dos contratados temporariamente no fim de ano. Mas é difícil garantir que o Brasil vai mesmo melhorar”, ressaltou.

Biasoto lembrou que o país tem taxa de juros real de cerca de 7% ao ano, vive uma grande

desorganização macroeconômica, tem câmbio valorizado e crédito restrito, além das inseguranças com a Operação Lava-Jato. “A economia está sendo baleada pela política. Como atrair investidores com esse panorama? O medo de começara admitir ainda não desapareceu”, afirmou.

No entender do economista Carlos Alberto Ramos, da Universidade de Brasília (UnB), o otimismo do governo deve ser encarado com reservas. Afinal, explicou, a economia real continua deteriorada e a queda de 0,9% do Produto Interno Bruto (PIB) no quarto trimestre de 2016, em relação ao terceiro trimestre, é indicativo de que a reação será lenta em 2017.

“A valorização do real em relação ao dólar joga contra a indústria. Os empresários não vão sair contratando a torto e direito. Precisam da certeza de que as reformas da Previdência e a trabalhista serão aprovadas. Tanto admissão quanto demissão têm custos. O empresariado ainda vai aguardar para retomar os investimentos em mão de obra”. Ele acredita que o mercado de trabalho só apresentará uma melhora mais nítida no último trimestre de 2017.

Mudanças

As flutuações nas intenções de investimento dos empresários são sentidas na prática pelos trabalhadores. Fernanda Rocha, 25 anos, ficou quatro meses sem emprego depois que perdeu a vaga de recepcionista na Câmara dos Deputados. Agora trabalha em uma concessionária, mas com salário inferior. “Eu ganhava R$ 2,5 mil por mês. E passei a receber R$ 1 mil. Mas precisava trabalhar. O dinheiro do seguro-desemprego já estava acabando”, disse.

Patrícia Yunes, 45, viveu situação semelhante. Era secretária em um órgão público. Há três anos, estava entre um grupo de terceirizados que foi demitido. “Fiz bico como recepcionista de convenções e seminários. Só agora, três diferentes companhias me procuraram ao mesmo tempo. Apesar das opções, o melhor salário é de R$ 3,5 mil. Eu vivia com R$ 4 mil”, reclamou.

A secretária contou que o filho, de 22 anos, também foi dispensado na mesma época. “Ele trabalha com tecnologia da informação. Foi convidado em outro estado para ganhar o dobro. Pelo menos, ele teve sorte”, comemorou Patrícia. Já José Paulo Fonseca, 32, conseguiu equilibrar as finanças. Era vigilante, agora, é cuidador de cães. “Estou fazendo uma coisa diferente, mas continuo com o mesmo salário. Acabou sendo bom, porque não afetou meu orçamento", salientou.

Edna Evangelino, 29, deixou de trabalhar depois que o salão de beleza onde era manicure fechou, justo no momento em que pensava em fazer um curso de cabeleireira. “Meu avô, que é uma pessoa muito sábia, disse que há males que vêm para bem. Ele me ajudou, eu estudei, aprendi a profissão de cabeleireira e estou me formando em podóloga. Ainda não consegui emprego, mas estou mais confiante, porque faço vários bicos e não fico sem dinheiro”, afirmou Edna.

Reaquecimento

O mercado de trabalho começa a dar sinais de melhora. O número de admissões voltou a superar o de demissões em fevereiro.

Postos voltaram a ser abertos no mês passado.

35,61

Embora a economia real continue enfraquecida, sem muitos sinais positivos, a geração de empregos é encarada como um sinal de reação nos investimentos, sobretudo em algumas atividades, como a industrial. Alguns fundamentos, entretanto, ajudam a explicar o movimento.

A alia dos preços está perdendo força e aliviando o orçamento dos consumidores. Em algumas categorias de despesas, como de alimentação e de bebidas, já se observa queda mídia de custos. Isso é encarado pelo empresariado como um incipiente estímulo para a retomada dos gastos.

A desaceleração da inflação amplia o espaço para que o Banco Central reduza a taxa básica de juros (Selic). Esse fator í fundamental para que o custo do crédito caia, permitindo que as empresas mais alavancadas possam renegociar as dívidas. O movimento também, pode ser um incentivo para a retomada de empréstimos e investimentos.

Embora a valorização do real em relação à divisa norte-americana seja ruim para o comércio exterior, é positiva para a importação e para a redução de custos na economia. É outro fator que tem animado sobretudo as empresas com atuação no mercado interno.

Geral de Empregados e Desempregados (Caged) e especialistas

A criação de mais de 35 mil empregosfoimais em fevereiro, após22 meses de números negativos, é um resultado positivo, mas ainda não permite afirmar que o mercado de trabalho entrou numa tendência firme de crescimento. A maioria dos analistas prefere esperar por mais indicações favoráveis para concluir que a recessão, de fato, ficou para trás.

Os dados do Caged, porém, serviram para que o presidente Michel Temer procurasse angariar simpatia da opinião pública num momento em

que o governo está pressionado pela Lava-Jato e a oposição usa a (polêmica) reforma da Previdência para emparedá-lo.

Temer lembrou os sinais de melhora na economia, que são evidentes, embora ainda dispersos. A inflação caiu, os juros estão em tendência de queda e a produção industrial cresceu em janeiro, pela primeira vez em 34 meses.

O cenário, no entanto, ainda está carregado de incertezas e a PEC da Previdência trafega em terreno conturbado. Exatamente por isso, o governo espera que os números do Caged possam ajudá-lo a convencera sociedade e o Congresso de que a agenda de reformas econômicas é necessária para que a economia volte a crescer deforma sustentada.

Relator sob suspeita

A discussão sobre a reforma da Previdência ontem girou em torno de dívidas previdenciárias e sonegação de impostos. O deputado Robinson Almeida (PT-BA) entrou com representação na Corregedoria da Câmara pedindo o afastamento do deputado Arthur Maia (PPS-BA) da relato ria da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) n° 287, que trata das mudanças nas regras previdenciárias. Entre os argumentos para considerá-lo inapropriado para a função, Almeida ressaltou que Maia é sócio de uma empresa de distribuição de combustíveis que deve R$ 151,9 mil ao Instituto Nacional do Seguro Social (INSS). Outro motivo para o afastamento seria o fato de o relator ter recebido R$ 300 mil de empresas de previdência privada na campanha de 2014.

Maia afirmou que a situação da empresa citada pelo petista é regular, apesar de estar inscrita na lista de devedores do INSS. “Eu não administro essa empresa que eu tenho. Fui procurar saber e vi que a companhia tem uma dívida regular com a Previdência Social, que vem sendo paga em dia, e está adimplente com a Previdência”, defendeu-se. Quanto às doações eleitorais, o relator já havia explicado, em fevereiro, que os repasses foram legais e que não vê “qualquer tipo de interesse conflitante que possa surgir a partir daí”.

Ainda ontem, Arthur Maia afirmou que concluirá o parecer sobre a reforma no início de abril. No cronograma inicial, a expectativa era que estivesse pronto até ontem, prazo que depois foi ampliado para o fim deste mês, devido ao aumento do número de audiências públicas na comissão. Como o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), estendeu o prazo para apresentação de emendas até as 18h30 de hoje, o relator precisará de mais tempo para analisar as solicitações.

Cobrança

A cobrança de dívidas previdenciárias foi tema de audiência pública na comissão especial da reforma da Previdência na manhã de ontem, na Câmara. Na reunião, a procuradora da Fazenda Anelise Lenzi, diretora do Departamento de Gestão da Dívida Ativa da Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional (PGFN), afirmou que os débitos previdenciários inscritos em dívida ativa atingem R$ 452 bilhões, estoque que cresce a uma média de 15% ao ano. Suficiente para cobrir três vezes o rombo da Previdência, que chegou a R$ 149,7 bilhões em 2016.0 valor diz respeito a contribuições previdenciárias que não foram pagas por empresas ou pessoas físicas.

Anelise afirmou, ainda, que 70% da dívida ativa da União, considerando estoques previdenciário e não previdenciário, está nas mãos de menos de 1% dos devedores. Isso significa que menos de 12 mil pessoas físicas e jurídicas devem aproximadamente R$ 1 trilhão aos cofres públicos.