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Bancos do Brasil testam tecnologia do bitcoin para baratear os custos

por Notícias às 09:26 de 27/09/2017 em Mercado de Cartões

Fonte: FOLHA DE S.PAULO/SÃO PAULO | GERAL

A tecnologia blockchain, a mesma usada para criar a moeda digital bitcoin, já está sendo testada por bancos brasileiros com o objetivo de diminuir custos de transações. O país, porém, ainda engatinhando em relação a outras economias mais avançadas, avaliam especialistas.

Por meio do blockchain é possível distribuir dados pela rede de várias máquinas conectadas em locais diferentes. Cada máquina tem uma cópia do conteúdo, que é gerenciado de forma compartilhada.

Esses dados são armazenados em blocos de informação criptografada, o que torna impossível excluir uma informação depois que ela foi inserida no sistema. Também dificulta o trabalho dos hackers, porque cada mudança precisa ser validada por várias dessas máquinas.

No Brasil, o primeiro teste formal da nova tecnologia ocorreu em abril, quando um grupo de trabalho na Febraban (federação dos bancos) formado por 16 entidades — entre elas os cinco maiores bancos do país, o Banco Central e a Bolsa B3— apresentou uma simulação de compartilhamento de cadastro com dados de clientes fictícios.

Essa é apenas uma das aplicações práticas da tecnologia. Em uma transação, por exemplo, toda a rede compartilhada checaria a operação, agilizando e barateando o processo.

“O blockchain permite ter mais eficiência operacional, que é o que todos os bancos procuram”, diz Adilson Fernandes da Conceição, coordenador do grupo de trabalho da Febraban.

O processo poderia ser replicado para transferências de dinheiro, ações, propriedade intelectual, pontos de fidelidade e mesmo votos, afirma Don Tapscott, um dos autores do livro “Blockchain Revolution” (“A Revolução Blockchain”, em uma tradução livre).

“Nós usamos intermediários, como bancos e emissoras de cartões, para garantir a segurança de transações. Mas eles são centralizadores, o que significa que podem ser hackeados, e custam muito, tornando as coisas mais lentas”, critica.

EXEMPLOS

Aqui, a tecnologia ainda está passando por validação, mas no exterior já houve passos mais concretos.

O banco espanhol BBVA fez um teste e enviou euros da sede na Espanha para serem convertidos em pesos mexicanos na filial do país latino-americano. O Santander fez um projeto-piloto parecido, remetendo dinheiro de Londres para Nova York.

Em termos regulatórios, o Reino Unido está na dianteira. O Banco da Inglaterra (BC britânico) testou se era possível sincronizar um pagamento de milhões de libras que passaria por seu sistema de compensação e chegaria ao de outro banco central.

A operação foi considerada bem-sucedida e pode abrir caminho para a consolidação da tecnologia.

No Brasil, país em que os cinco maiores bancos detêm quase 80% dos ativos totais do sistema financeiro, a concentração pode facilitar a adoção da tecnologia blockchain, diz Frederic De Mariz, diretor de análise de empresas financeiras do UBS Brasil.

“Isso exige uma colaboração de participantes que seria mais fácil de conseguir. Bastaria colocar na mesa os cinco bancos que têm posição relevante no sistema bancário, o que seria mais eficiente e reduziria custos”, diz.

Essa colaboração, porém, pode ser difícil de conseguir, afirma Paulo Ossamu, diretor-executivo da Accenture Strategy. “Há um nível de competição acirrado. Cada um quer sair na frente, mas eles não colaboram. O blockchain funciona melhor de forma distribuída”, diz.

Para ele, os bancos têm medo de adotar uma solução mais cooperativa e ficar mais vulneráveis. “Essa colaboração é essencial no sistema brasileiro. Se não for uma solução robusta, em que os bancos colaborem, como garantir que a tecnologia vai aguentar os grandes volumes de transações feitos aqui?”

Há riscos para quem não souber aproveitar o momento, avalia Donald Tapscott, especialista na tecnologia. “Tudo o que os bancos fazem pode ser eliminado por essa tecnologia. Por outro lado, se os bancos abraçarem o blockchain, poderão oferecer mais valor aos consumidores a um custo menor”, afirma.

André Leme, sócio da Bain & Company, tem percepção parecida com a de Tapscott.

“É possível criar um novo mercado, dependendo de como os usuários vão adotar a tecnologia. Não significa que você não vai precisar de bancos, mas sim que será mudada a forma como esses participantes operam. E quem sair na frente poderá ganhar mercado”, diz.