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Queda dos juros do rotativo pode ter atingido piso

por Notícias às 09:23 de 23/11/2017 em Mercado de Cartões

Fonte: GS NOTÍCIAS - GESTÃO SETORIAL/BELÉM

"Limitar o ciclo do rotativo foi saudável, pois saímos de taxa de quase 15% ao mês para perto de 10%", diz Ricardo Vieira, diretor-executivo da Associação Brasileira das Empresas de Cartões de Crédito (Abecs).

Uma conjuntura econômica em que a taxa Selic está próxima da mínima histórica, o desemprego apresenta leve recuo e a inflação permanece baixa tem ajudado. Mas a queda de 204 pontos percentuais, ou seja, um corte de quase metade do juro cobrado no rotativo do cartão de crédito entre março e setembro, segundo bancos e entidades representativas do setor, veio mesmo na esteira da mudança de regras para essa modalidade de financiamento, que passou a vigorar em abril. "Limitar o ciclo do rotativo foi saudável, pois saímos de taxa de quase 15% ao mês para perto de 10%", diz Ricardo Vieira, diretor-executivo da Associação Brasileira das Empresas de Cartões de Crédito (Abecs).

As novas regras definidas pelo Banco Central limitam o uso do rotativo ao período de um mês. Acima desse prazo, a quitação do saldo em aberto da fatura deve ser feita à vista ou por meio de parcelamento a juros mais baixos oferecido pelas instituições. O Conselho Monetário Nacional (CMN) aprovou a resolução nº 4.549 em 26 de janeiro, mas as normas passaram a vigorar a partir de 3 de abril. De lá até setembro, segundo dados mais recentes do BC, os juros do rotativo regular caíram de 431,1% ao ano em março para 227,5%, cinco meses mais tarde. Em setembro, o Banco Central lançou um complemento das normas para disciplinar a cobrança de clientes em atraso, ou seja, aqueles que não pagaram nada ou quitaram menos que o mínimo. Antes do texto, sobre essas dívidas, classificadas como de rotativo não regular, incidiam juro remuneratório estabelecido no contrato acrescido de "comissão de permanência", uma taxa flutuante, usada para elevar o custo.

A resolução proíbe a "comissão de permanência" e determina o uso apenas da taxa estabelecida em contrato, além de mora e multa. Para se ter uma ideia da distância entre os juros das duas modalidades do rotativo, em agosto, um mês antes da nova regulação, os juros não regulares estavam em 506,2% ao ano, ou seja, 284 pontos percentuais acima da taxa cobrada no regular. No mês seguinte a taxa do não regular caiu para 399,4% anuais. Os custos menores de financiamentos para pessoa física em geral têm reagido à redução da taxa básica que, atualmente, está em 7,5% ao ano, muito perto da mínima histórica de 7,25%.

O recuo da Selic levou, por exemplo, a taxa média do crédito pessoal, que inclui linhas de consignado e de não consignado, de 54,2% em janeiro para 48,5% em setembro. De acordo com Rodrigo Cury, superintendente executivo de cartões do Santander, a redução da taxa básica ajudou, mas não foi responsável pela queda tão acentuada dos juros do rotativo. "A Selic menor e a maior concorrência ajudaram na diminuição dos juros, mas podemos dizer que a nova regra trouxe, como primeiro efeito mais forte, a baixa de juros do rotativo", diz. O forte declínio da taxa, porém, concentrou-se entre março e junho, quando atingiu 230%. Desde então, o custo do rotativo permaneceu, praticamente, no mesmo patamar.

O consenso aponta para o movimento ter atingido um piso, uma vez que o recuo refletiu em grande parte uma antecipação pelas instituições do cenário de menor inadimplência. De acordo com Francisco Terra, diretor do Bradesco Cartões, para a taxa cair mais a situação econômica tem de melhorar.

"A melhora do emprego pode levar a um pouco mais de recuo, mas o problema é que o desemprego não está melhorando tanto para mais quedas futuras de taxa", diz. Apesar do benefício direto em termos de custos, a disseminação do uso das novas regras dos cartões de crédito ainda enfrenta um obstáculo: a desconfiança dos clientes. Para Roberto Vertamatti, diretor de economia da Associação Nacional dos Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade (Anefac), a expectativa inicial era de "uma adesão de 60% a 70%" dos usuários do rotativo ao parcelamento.

"Mas passados sete meses, o saldo do rotativo não regular atraso de até 90 dias continua em patamares parecidos a abril", pondera. Cury, do Santander, conta que, depois da adoção das regras, muitos clientes têm feito um "esforço adicional para não entrar no rotativo ou quitar a fatura, para evitar o parcelamento". De acordo com o executivo, "muitos veem a dívida do cartão como sendo de curto prazo, que pode ser liquidada a qualquer momento, e têm uma certa resistência em substituí-la por outra dívida que enxergam como de longo prazo".